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Vivemos em um tempo de renúncia imposta jamais visto na humanidade. Direitos civis, valores individuais e poderes materiais foram suprimidos por um momento.

O direito de ir e vir nos foi suprimido. A liberdade de escolha do que fazer nos foi negado. Por um tempo, estamos trancados em nossas próprias casas, induzidos a uma reflexão.

Chefes de Estado estão renunciando seu orgulho e retrocedendo em suas posições, não há como seguir em um caminho egocêntrico. Aliás muitos destroem suas muralhas individuais e começam a ver o outro, entendendo que vivemos todos juntos no planeta Terra.

Somos obrigados a renunciar a vaidade, deixando as roupas caras de grife no armário. Até os televisivos, sempre maquiados e preparados para a tela, mostram seus verdadeiros rostos em suas casas.

Não há como ostentar a riqueza, não há como ostentar o poder. Estamos todos em quarentena lutando por algo desconhecido. Príncipes, presidentes e famosos não estão impunes ao vírus, nenhum dinheiro pode o detê-lo.

Essa renúncia obrigatória nos refletir sobre quais são os valores realmente importantes para a vida, aqueles que não podem ser banidos com crises, pandemias e guerras. Nos faz pensar sobre o sentido da vida. Nos faz desacelerar e perceber que temos algo lá em nosso interior, que na correria diária é esquecido.

A renúncia obrigatória é um chamado para nos encontrar com nossa alma, conhece-la, Muitas vezes é um desafio entende-la e aceita-la. Mas é a partir daí que começa uma transformação pessoal, uma transformação de valores em busca do que realmente importa.

Nessa renuncia global, mudaremos o campo vibracional da terra, teremos mais empatia, mais amor, mais paciência, mais compreensão. Daremos mais abertura a nossa alma, ficaremos mais espiritualizados, mais tranquilos, mais plenos. Depois que isso passar, aprenderemos o sentido da relatividade, que tudo passa e nós somos os grandes observadores da evolução da humanidade através da eternidade.

Quando pensamos em alvos e metas temos que considerar que existe um caminho, uma jornada para chegar a eles. Gosto de comprar essa busca a uma viagem. Com um destino definido, mas com um percurso a percorrer até chegar.

Digamos que nossa viagem seja para a Itália e nossa meta conhecer Veneza, seus inúmeros canais, andar de gôndola e saborear as iguarias venezianas a beira do rio. Para se chegar a esse objetivo teremos que percorrer um longo caminho. A viagem de cada pessoa começa a diferenciar-se nesse percurso. Alguns preferirão contratar uma operadora de turismo que organizará tudo, não terão preocupações, praticamente fecharão os olhos e acordarão em Veneza. Outros farão esse percurso descobrindo por si mesmo o caminho, passando trabalho, conhecendo pessoas e locais novos. No final, todos chegarão a Veneza, uns antes outros depois, uns com suas bagagens intactas, iguais de quando partiram, outros com uma bagagem cheia de experiências novas, conhecimentos e histórias para contar.

Assim é a vida. Quando traçamos metas e alvos para serem alcançados temos inúmeros caminhos para escolher. Essa jornada é definida por nós, muitas vezes os caminhos mais curtos não trazem os resultados esperados. Muitas vezes os caminhos mais longos são mais educativos e apesar de demorarem mais para alcançar o alvo, são mais produtivos e compensadores. Tão importante quanto chegar ao alvo é a jornada até ele. Temos que ter em mente nosso alvo e vivenciarmos por completo a jornada até ele, aproveitando as oportunidades, sem ansiedade, mas sem procrastinação.

Quando fui para o Peru com um amigo historiador nosso objetivo era conhecer Machu Picchu. Poderíamos ter pego um avião até Lima, outro até Cuzco e um trem até a cidade sagrada dos Incas. Mas resolvemos fazer uma jornada diferente: percorrer de ônibus e trem toda a extensão entre Rio de Janeiro e Cuzco, visitando inúmeras localidades nos andes. A viagem que poderia ter durado algumas horas até Cuzco durou uma semana. Poderia-se pensar que foi uma perda de tempo, mas a experiência adquiria foi riquíssima e com resultados surpreendentes ao final.

Chegando em Cuzco, poderíamos ter pego um trem direto para Machu Picchu, mas a jornada até lá nos deixou tão aberto a novas experiências que por “um acaso” encontramos um mapa antigo em um sebo de Cuzco. O mapa descrevia uma rota desconhecida para Machu Picchu usada por soldados incas. Isso brilhou nossos olhos, ficamos entusiasmados, mas analisando o mapa percebemos que existiam passagens difíceis a cinco mil metros de altitude e que a trilha era bastante deserta. Decidimos nos preparar. E uma nova jornada teve início para chegarmos ao nosso objetivo: agora percorreríamos trilhas incas menores no Vale Sagrado, até nos sentirmos preparado.

Depois de dez dias nos preparando, resolvemos partir em direção a trilha desconhecida para a cidade sagrada dos incas no meio de vales e montanhas imensas. Uma jornada incrível de seis dias no meio da natureza que testou nossos limites e nos aprofundou no autoconhecimento. A chegada em Machu Picchu ao amanhecer sem nenhum visitante foi emocionante. Com certeza bem diferente da chegada que poderíamos ter feito de trem e que duraria apenas algumas horas. A jornada tinha nos modificado, tínhamos aprendido muitas coisas. E não ficou por aí, essa jornada transformou-se em reportagens de revistas e posteriormente em livro. No final, a jornada tornou-se mais importante que o próprio destino; e a meta que era conhecer um local tornou-se a realização de publicar um livro.

A jornada é tão importante quanto as metas. É essencial termos metas, alvos a serem alcançados, mas a jornada para alcança-los é igualmente essencial. Foco nas metas é importante. Precisamos disso para seguir com força e entusiasmo. Mas não podemos fechar nossos olhos na jornada. Temos que estar com os olhos abertos para as oportunidades que surgem no caminho. Temos que estar com a mente aberta, observando a realidade como ela é.

Não podemos esperar que sejamos felizes apenas quando alcançarmos nosso alvo. Não podemos pensar que enquanto não alcançarmos as metas teremos que sofrer e passar por necessidades. A jornada apesar de poder ser dura e algumas vezes até penosa, tem que nos satisfazer. Tenhamos em mente que aprendemos muito durante a jornada, em suas provas e desafios.  Gandhi dizia “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o próprio caminho”.

Em nossa vida nos deparamos constantemente com essa frase dita por amigos e familiares sempre que alguma infelicidade nos acontece. Junto a ela, um exemplo de como poderia ter sido pior, caso acontecesse outro infortúnio. Ou a consolação pode vir acompanhada por uma comparação de algum caso que tenha acontecido com alguém conhecido, ou simplesmente que se ouviu falar ou leu-se em algum lugar. Dessa forma o ser humano se consola, se resigna pela comparação de algo que aconteceu com outros de sua espécie ou que simplesmente poderia ser pior.

Assim, quando uma filha cai da bicicleta e quebra o braço, seus pais ouvirão “podia ser pior, podia ter caído e batido com a cabeça.” Ou quando seu filho começa a não estar mais presente em casa por causa de uma paixão avassaladora, podemos ouvir “podia ser pior, ele poderia estar fora de casa por causa das drogas”. Ou quando sua esposa se envolve em um acidente de carro, destrói toda a frente daquele carro novo, você escutará “podia ser pior, não houve machucados”. Ou quando você atropela um motoqueiro, por descuido seu ou dele, e destrói a moto pode ouvir ”podia ser pior, o motoqueiro está vivo e nem se machucou”.

Mas há também as comparações, essas verídicas nos consolam mais. Muito comum nos casos de doenças, quando falamos que um familiar adoeceu, se sentiu mal, foi hospitalizado mas está se recuperando, podemos ouvir “podia ser pior, conheço um vizinho que teve a mesma doença e morreu logo depois.” Ou um amigo que teve câncer e conseguiu vencer depois de muita luta com quimioterapia e radioterapia e apesar de muito fraco, segue a vida, com certeza ouviremos outra história de alguém que teve o mesmo câncer e não conseguiu vencê-lo. Dessa forma ficamos mais calmos e aceitamos nossa situação em comparação com as desgraças piores que as nossas.

Essas comparações são importantes no primeiro momento para nos consolar. Mas todos os problemas, doenças, sofrimentos possuem um significado oculto. Todos possuem valiosos ensinamentos, mensagens para nossa evolução. Se conseguirmos ultrapassar a dor, a raiva e a autopiedade que no primeiro momento tomam conta de nós e enxergarmos o problema com distanciamento, talvez consigamos descobrir o significado dele. Na natureza nada é por acaso.

Parar, relaxar e perguntar intimamente “o que será que isso quer dizer?” “O que posso aprender com isso?” As respostas estão dentro de nós, não precisamos perguntar para mais ninguém, apesar de muitas vezes nossos amigos e familiares nos darem pistas do que precisamos melhorar. As doenças, por exemplo, geralmente são alertas, avisos de que algo está errado em nosso caminho. Que estamos nos desviando de nosso propósito e assim enfraquecendo nosso corpo e nossa alma.

Aproveitemos ao máximo nossos problemas, são eles que realmente nos farão crescer, evoluir em todos os sentidos, tanto em termos emocionais, espirituais e profissionais. A raiva, o ódio e a autopiedade não levam a lugar algum, pelo contrário, apenas pioram a situação, não permitindo um raciocínio claro. Na maioria das vezes, somos nós mesmos que causamos as dores e as infelicidades.

Nossa vida é uma eterna aprendizagem, nada é por acaso. Saibamos aprender com os erros e com os problemas.